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Ó, Pai Ó

Texto publicado na coluna de Anna Ramalho, no Caderno B do Jornal do Brasil, em 14 de novembro de 2009.

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Praia no Porto da Barra, Salvador, meu amor, Bahia. Sábado de muito sol e calor. Em companhia de Bel, a mana querida, e de Deolinda, mana de adoção, matraqueávamos beliscando acarajé à francesa (cortado em apimentados bocadinhos) acompanhado de Coca Zero. Leseira baiana, alegria de viver, relax total – e inteligente, porque a conversa valia a viagem.

De repente, um estrondo. As cariocas, sempre em estado de alerta máximo, por pouco não saíram correndo em ritmo de arrastão de Ipanema. Mas o grito saiu: aquele som agoniado do pânico, daquela angustiante sensação de que vai sobrar pra gente. A baianada em volta – e eram muitos, porque a praia é pequena e estava lotada – riu muito.

O estrondo nada mais era do que o regular tiro de canhão das 11 horas de sábado, que parte do forte. Em baianês legítimo, o vizinho do lado sossegou a gente: “Não se avexem, não! Hoje, como a pólvora deve estar nova, saiu forte assim. Em outros dias, não passa de um puf!” Uma delícia. Amo Salvador imensamente. Talvez seja atávico, afinal, meu pai e seus pais eram soteropolitanos e moravam ali mesmo, perto de onde estávamos, na Ladeira da Barra. Hoje, quando vejo Salvador cheia de prédios altíssimos – que desfiguram tanto a sua bela paisagem, agora entupida de shoppings, de imensos supermercados – me pego a pensar como teria sido naquele tempo. Pela topografia da cidade, é de se imaginar que aquele mar azul tão lindo fosse visível de toda a cidade, como ainda é hoje, só que mais próximo, sem tanta interferência. Enfim. É o progresso, nada a fazer, mas incomoda a especulação imobiliária. Bel, que lá não ia há mais de 30 anos, se assustou.

Mas também se maravilhou com tudo de bom que a Bahia tem, com aquela cordialidade de seu povo, a música que se espalha no ar, a beleza de seu Centro Histórico, onde ficamos hospedadas na Pousada des Arts, do franco-brasileiro Eric e Rose, sua mulher, brasileira regada a dendê. Uma detalhista, essa Rose: a pousada é cheia dos detalhes charmosos, das pinturas típicas, das toalhas pintadas à mão, camas com dossel e cortinado de rendão, ar condicionado tinindo pra espantar o calor, e a vista das ruelas charmosas, de um lado, e do belo Porto, do outro.

Neste finalzinho do ano da França no Brasil, pelo menos nos meios em que circulei, só se falava o idioma de Molière.
Irène Kirsch, minha anfitriã gentil e a jovem e brilhante adida cultural da França em Salvador, trabalhou como uma moura, enquanto nos divertíamos pela cidade. Naquele final de semana, ela estava recebendo a nata do comissariado francês, que chegou a Salvador para o encerramento oficial da temporada. Irène deu conta perfeitamente do recado, apesar daquela leseira baiana que, se não for muito bem conduzida diplomaticamente, pode bater de frente feio com o cartesianismo tão típico dos franceses. A adida mandou bem, quand même. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos e o manemolente Senhor do Bonfim deu conta do Descartes quadradão. Um verdadeiro banho. De dendê, bien sûr.

Muitos dos franceses marcaram presença na festa de aniversário de Irène, em seu amplo apartamento na Graça, e misturaram as caipirinhas tão brasileiras com as deliciosas quiches do chef bretão Marc Le Dantec (um gato, diga-se). Lá conheci Márcio Meirelles, o interessantíssimo secretário de Cultura, feliz da vida com o sucesso do Museu Rodin em Salvador. Meirelles, que é o autor do argumento de Ó paí, ó, me confessou ao pé do ouvido as alegrias, mas também as decepções que tem tido no cargo: “O mais duro é que não reconheço mais os meus amigos. Nem eles a mim”. Com educação e finura, dizia nas entrelinhas que o pessoal da cultura ainda pensa como nos tempos de ACM, o capo di tutti i capi na Bahia, ainda que eu mesma reconheça tudo de bom que o finado cacique fez por sua terra. Trocando em miúdos, neguinho quer continuar mamando nas tetas. A cara do Brasil, né não? O Rodin de Salvador é uma graça. Evidentemente, não pode ser comparado ao de Paris, na minha opinião, o mais agradável museu do mundo, além de importantíssimo e belíssimo. É uma delícia admirar a indescritível obra de Rodin enquanto se passeia pelos lindos e bem cuidados jardins. No de Salvador, o que me encantou foi a casa que o abriga, o Solar Catharino, um lindo palacete do século 19 na Graça.

Como sempre, deixei a Bahia pra trás com gostinho de quero mais. Ainda hei de ter um pied-à-terre por lá. De frente pro mar, porque a gente sempre deve pensar grande.

E desde terça-feira tenho ainda mais saudade. Salvador é tão abençoada que ficou a léguas deste apagão que virou o Brasil de cabeça pra baixo e provou a todos os brasileiros que Lula não é tão o cara assim, como ele pensa. Desta vez, o blackout deu um apagão também no se achismo de Sua Excelência. Valei-nos, Senhor do Bonfim!

Publicado em 14/11/2009 | nenhum comentário

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