Shakespeare e Molière
Escrito por Marcio Meirelles, em Salvador, em 24 de janeiro de 2010.
Deolinda, nosso debate no Facebook, iniciado por uma comparação, um tanto simplista, entre Shakespeare (cuja produção dependia também do mercado) e de Molière (subsidiado por um rei esperto que via na obra do artista a possibilidade de marcar o seu reinado) seqüência de outros que tivemos no mundo real, não foi sobre a privatização da cultura, como você sugere em seu artigo no Terra. Mesmo porque a cultura é inprivatizável, assim como é inestatizável. A cultura é uma atribuição da sociedade, uma atividade constante e interminável da humanidade. Falávamos sobre a produção artística, especialmente a teatral. O que defendo – e sempre defendi, mesmo como artista de teatro e gestor cultural, antes de estar na secretaria de cultura – é que:
1 – O investimento de recursos públicos nas atividades artísticas deve ser justificado pela necessidade e interesse públicos da e naquela atividade. O que não é mensurável apenas pela bilheteria. Mas também. A troca simbólica da compra do ingresso ou do livro, ou do cd, ou do… é parte da comprovação desse interesse. Mas, além dessa, há outras formas e dados para mensurá-lo: o benefício que aquela atividade gera no desenvolvimento da comunidade ou da linguagem, sua importância na preservação de identidades e sentido de pertencimento, etc. também contam. Por outro lado, algumas vezes, o investimento governamental é necessário exatamente quando se dá o contrário: uma absoluta e sintomática falta de demanda por uma determinada atividade, sabidamente necessária ao desenvolvimento social pleno.
2 – Que o Governo não pode ser a única fonte de financiamento das atividades artísticas porque gera uma dependência não saudável para elas. Quando a economia da cultura é baseada exclusivamente, ou quase, na subvenção estatal e não em políticas públicas de fomento, corremos sempre o risco de manipulação por parte dos governantes ou de subserviência a eles por parte da produção artística, e podemos perceber, nos momentos e lugares onde isso ocorre que sempre será mais vigorosa e interessante a produção marginal. Evidentemente toda regra tem exceções que a confirmam. Temos também boas produções e invenções e transgressões subsidiadas pelo estado. Esse é o caso de um Molière ou o de uma Mnouchkine (que justifica plenamente o subsídio governamental recebido pelo Soleil pois o interesse público em suas produções pode ser mensurado pela troca simbólica – nas lotações esgotadas, na necessidade de reserva de bilhetes, etc. – mas tb pela preservação de identidades, pela inovação da linguagem, pela atenção, sempre contemporânea, ao benefício social e político que seu trabalho deve trazer ao mundo real, não só por ser subsidiada mas, principalmente, por ser artista – esses exemplos são e fazem história. Não porque tiveram ou têm “patrocínio” estatal mas pelo talento e genialidade que possuem suas obras – o que n é fruto de patrocínio.
Portanto não é justo você sugerir que quero “privatizar a cultura” – sei que foi só uma provocação de brincadeira mas, mesmo assim, injusta porque não corresponde ao que penso e pratico – ou levantar a suspeita de que tenho idéias neo liberais. Estou longe disso, muito longe. Sei exatamente o papel do Estado, em relação à produção cultural, mas sei também o papel do mercado e o do artista e/ou produtor cultural. Além do que, cada sociedade e época têm sua história e o que dá certo num determinado lugar não pode, muitas vezes, ser transferido, como solução, para outros. Nem o que ocorre num momento histórico pode ser mantido eternamente, sem revisões, porque as sociedades estão sempre em movimento.
Finalizando, creio que um estudo comparativo entre a sociedade da Inglaterra elisabetana e a da França absolutista, tendo como foco a economia da cultura e como isso gerou o teatro de um Shakespeare e de um Molière – evidentemente levando-se em conta a genialidade única e humana deles – seria muito interessante.
Beijos afetuosos e carregados de admiração pelo seu amor ao teatro – logo à humanidade.