PINA BAUSCH: CONTATO COM O HUMANO
Artigo de Marcio Meirelles para o jornal A Tarde, sobre a coreógrafa Pina Bausch (1940-2009)
“Era para todos terem mais de 65 anos, assim como era para serem todos daqui de Wuppertal…mas foram se infiltrando. E tem alguns com 60, mas também tem alguns com mais de 80. E nem todos moram na cidade, alguns moram nos arredores” – Os olhos de Pina Bausch brilham quando ela fala de seu novo elenco: não-dançarinos, não-atores. Pessoas com mais de 60 anos. A dança já tinha tido passagem pela vida de alguns deles. Mas passou, e, para outros, veio o novo, a descoberta do palco e suas possibilidades: um universo paralelo.
xxx
Pina Bausch escolheu esse elenco depois de uma seleção, anunciada, para a qual compareceram 110 mulheres. Os homens vieram em menor quantidade. Mas ainda assim foram muitos. Pessoas com até mais de 80 anos. Foram escolhidos 25, dois a mais do que o elenco original.
xxx
Simultaneamente foi realizada, com o elenco regular da Wuppertal Tanz Theater, a remontagem a mesma peça Kontakthof, de 1979. O espetáculo se passa numa sala com paredes altas, teto, duas portas, um piano de armário, um janelão por onde entra uma forte luz em diagonal. Circundando as paredes da esquerda, do fundo e da direita, estão cadeiras enfileiradas, como numa sala de espera. É o que é aquela sala de algum modo. As pessoas vão ali esperar que algo aconteça. Um encontro, um contato.
xxx
Nada se interpõe entre nós e o espetáculo. O contato entre esses dois mundos é possível. E muitas vezes o elenco interage diretamente com o público. Uma das dançarinas pede constantemente dinheiro a alguém da platéia para fazer funcionar um desses cavalinhos onde as crianças sentam-se, os pais colocam uma moeda e ele simula uma cavalgada, como movimentos mecânicos. A dançarina não consegue fazer o brinquedo funcionar. Tenta várias vezes, e cada vez pede uma nova moeda a alguém. Até que uma outra dançarina mostra a ela como se faz, pressionando um botão ao lado do receptor de moedas. Então, com o cavalinho funcionando, ela senta-se e compõe uma das imagens mais bonitas sobre a solidão, que o espetáculo nos mostra. Ela cavalga o brinquedo com movimentos sutis de quadris, que até poderiam sugerir uma masturbação, mas é feito de um modo tão melancólico e delicado, que o que nos aparece é toda a solidão feminina, num mundo povoado por regras masculinas, onde se busca desesperadamente contatos que quebrem essas regras. Que tragam mais poesia à vida e a tornem mais real.
xxx
Kontakthof, uma peça de Pina Bausch, é como diz o programa, o cartaz e todo o material impresso. Aliás é o que diz todo o material sobre todos os espetáculos criados pela coreógrafa. E é fácil saber porque. Sua marca está lá, evidente. Todos os elementos sempre comparecem e sempre surpreendem. Ela usa sistematicamente o vocabulário que criou: pequenos gestos, curtas seqüências coreográficas, texto. Depoimentos dos atores, situações líricas, poéticas, catastróficas, absurdas, mas verossímeis – possíveis de serem vistas na rua, em casa, em qualquer lugar onde o homem habita. A marca de Pina Bausch é esta: a marca da humanidade. Em tudo o que ela faz está o humano e a capacidade de entender, de alguma forma, e, principalmente, de amar essa criatura que também povoa o mundo.
xxx
Novo rumo
“Eles eram incríveis”. Trabalhavam sem parar e com muita alegria. Trabalhavam muitas horas por dia, só tinham um intervalo para o lanche e voltavam, não queriam parar . Às vezes Pina ficava com medo, achava que estava sendo demais, mas eles diziam: tudo bem. De vez em quando alguém faltava um dia, geralmente para fazer exames médicos de praxe, mas isso era muito raro. Ensaiavam avidamente. “Com mais energia que os dançarinos”.
Perguntei porque ela resolveu montar a peça com esse elenco especial, além de remontar com seu elenco regular.
– “Kontakthof é sobre o desejo de contato entre as pessoas. E isso todo mundo tem. As pessoas mais velhas não perdem esse desejo. Ao contrário, eu quis ver como era isso”.
xxx
Pina Bausch está sempre colocando a sua marca por onde toca e está sempre falando sobre o amor. Li uma entrevista, onde ela dizia que mais do que nunca nesse fim de século é necessário se falar sobre o amor. E amor aqui se traduz por contato. A necessidade de estar junto, de vencer o tempo. E ela fez isso em dose dupla para não deixar dúvidas sobre seus propósitos. Com seu elenco regular. E com esse elenco especial que coloca sobre o palco quase dois mil anos de humanidade, se somarmos as idades dos não-atores participantes.
xxx
O diferencial desse elenco também é o fato de que a busca à qual se lança é verdadeira, não é somente uma busca estética ou profissional, mas, antes uma necessidade. Para esse elenco de pessoas com mais de 65 anos fazer Kontakthof e estar no palco é a tradução exata de uma necessidade vital de ser e estar no mundo.
xxx
Nosso encontro foi na terça-feira, após a apresentação da versão da companhia regular, a estréia do novo elenco seria na sexta. Eles fariam três apresentações e tudo terminaria.
xxx
Eu já começo a pensar na segunda-feira. O que eles farão na segunda-feira? Divagou a coreógrafa. É, o que farão?, perguntei. Seus olhos se apagaram ali e acenderam em outro lugar qualquer, em algum mundo possível. Os convidados do jantar deram novos rumos às conversas e deixaram-na se perder por aí.
xxx
Comecei a conversar com Ruth Amarante, a dançarina brasileira da companhia, sobre o trabalho da Wuppertal Tanz Theater. Ela está na companhia há oito anos. Já participou de algumas montagens e algumas remontagens.
xxx
Todo o processo de montagem é muito longo. Eles estão trabalhando na próxima produção, sobre o Leste Europeu, desde setembro. Estréiam em maio. “Não me lembre disso”, disse uma sorridente e resignada Pina Bausch.
xxx
Durante a primeira parte do processo, eles só improvisam. Ela traz perguntas que eles procuram responder das mais variadas formas, sozinhos ou em grupos. Às vezes pedem um tempo, ensaiam um pouco e apresentam para ela, que apenas olha e não diz nada. Anota o importante nas profundezas esfíngicas de seus olhos azuis.
xxx
O elenco sai às vezes arrasado, às vezes exultante dos ensaios. Isso depende exclusivamente deles, porque a coreógrafa não comenta nada, nem avalia os desempenhos. Isso para um dançarino ou ator significa morte lenta. Eles saem dos ensaios e anotam tudo, porque depois de meses de improvisações, intercaladas por remontagens, turnês e apresentações, começa a construção de mais uma peça de Pina Bausch e ela o faz tecendo todo o material que foi trazido pelo elenco. Caso não lembrem do que fizeram nas improvisações, não faz mal, é porque não era tão importante assim. E seguem adiante. Ela mesma, além das perguntas e anotações, traz muito pouca coisa para essa construção. Seu verdadeiro trabalho é o de tecelã. Com dedos delicados vai emendando, costurando um gesto no outro, uma imagem na outra, colando, polindo, limpando. Com toda a propriedade.
xxx
No caso das remontagens eles não improvisam nada. Ao contrário, cada detalhe, cada olhar do elenco da montagem original é refeito pelo novo elenco. Primeiro eles assistem muitas vezes os vídeos, depois começam a restauração, e o fazem com esmero e precisão, com toda a fidelidade possível, para que o original resplandeça e a peça fique viva como na primeira apresentação. Essa é a magia do teatro e da dança, é a magia difícil de ser conseguida, mas possível: ser sempre uma obra viva.
xxx
De repente, os olhos de Pina Bausch se iluminam outra vez, depois de terem vagado por outras paragens, ainda que estivesse atenta a tudo, e os circundantes da mesa se voltam para ela. “Tem outra peça que posso fazer com o elenco dos mais velhos. É uma sobre velhas canções baratas dos anos 30, 40. Tem uma mesa no centro do palco, e tudo gira em torno dessas canções sentimentais”. Assim, mais uma teia pode começar a ser tecida.
xxx
Mas antes, o próximo trabalho de Pina, depois da produção sobre o Leste Europeu, será sobre o Brasil. Ela ainda não sabe o que será. Irá com a companhia no fim do ano a São Paulo, onde apresentará Mazurca Fogo, “peça criada em Lisboa, mas com tantas músicas brasileiras que parecerá familiar”. Depois ela e parte do elenco ficam mais um tempo no Brasil, pesquisando, vendo coisas, vendo gente. – “O trabalho de Pina sempre é sobre gente”, observa sua produtora. E a Bahia está nos seus planos, é claro. “Sempre foi um sonho visitar a Bahia”. Ela sorri.