Viva o Rebolation
Escrito por Marcio Meirelles, em Salvador, em abril de 2010.
Meu gosto pessoal é inclusivo: gosto tanto de ouvir Rebolation quanto Bach ou Cage ou Beatles ou Lucas Santana. Assim como monto Goethe ou Brecht e leio histórias em quadrinhos e me comovo com novela das seis ou afoxés. Não tem que ser isso ou aquilo. Pode ser tudo. Porque tudo tem sua poética.
Cada coisa é cada coisa. Por exemplo: letra de música não é poema, apesar de usarem ambos a mesma matéria prima: palavras. Nas letras de música, as palavras precisam ser associadas a rítmos, melodias e harmonias para criar imagens, reflexões, deleite, diversão…
Nos poemas, as palavras sozinhas criam ritmos, harmonias, melodias e imagens, dependendo do talento do poeta. Isolar a letra da música, às vezes, é como tirar um peixe da água. Mas musicar um poema pode resultar numa superposição desastrosa. Mesmo que as duas experiências, eventualmente, possam resultar em sucesso.
Para adentrar no debate, precisamos diferenciar cultura, produto cultural, arte e indústria cultural. São coisas distintas que se complementam. Não se desmerecem nem há hirarquia. Há, sim um “ecosistema” cultural. Redes produtivas que tornam tudo isso rico, diverso, viável e sustentável.
A cultura – nossos comportamentos, saberes e fazeres – nos alimenta de modos e símbolos que nos identificam e permitem dialogar com o outro. E quanto mais consigamos tocar outros, melhor. Podemos ter duas sensações distintas: a de que podemos melhorar o mundo, partilhando valores comuns; ou a de que podemos dominar o mundo.
E esse universo simbólico, vocábulos e repertórios identitários, traduz-se e se condensa em produtos culturais: objetos materiais ou imateriais, frutos dos relacionamentos do indivíduo com a natureza, do cidadão com a sociedade e da preservação dessas relações pela memória coletiva.
A arte – ato de fazer com esmero – ressignificando os mesmos processos, muitas vezes com lógicas subvertidas, constroi objetos artísticos que viram referências, ícones, acervos, a patir de um consenso que envolve academia, mídia, mercado.
A indústria cultural possibilita a sustentabilidade da arte e o acesso a ela, gerando, a partir da apropriação das linguagens e produções artísticas, novos ícones e produtos artístico-culturais. Produzidos ou reproduzidos em série e, cada vez mais, oferecidos ao público por engenhosos sistemas de marketing, são transformados em objetos de desejo e de consumo coletivo, democratizando/massificando o acesso ao que era exclusivo domínio de um grupo.
Por mais que nos choquemos, a arte é objeto de consumo e produto de troca desde sempre. A renascença começou a descentralizar isso, deslocando o eixo de produção e patrocínio da esfera do público, determinados pelo Estado e pela Igreja, para a do privado, com o surgimento da burguesia e dos mecenas. E também deu início a popularização de alguns setores, como o da literatura e das artes visuais, com as tecnologias de reprodução em série. Hoje, ingressos no teatro ou cinema, livros, cds, dvds, quadros, gravuras e todos os conteúdos veiculados pelas indústrias da comunicação e da informação são comprados – ou seja, o acesso à produção artística se dá através de troca, ainda que essa troca possa ser subsidiada ou totalmente financiada pelo Estado ou por patrocinio da iniciativa privada. O que gera recursos e valores.
Para uma elite manter sua posição não basta apenas o domínio e acúmulo de recursos econômicos. É preciso também um domínio e acúmulo de bens simbólicos. E, sendo a linguagem também poder, essa elite constroi códigos restritos para a comunicação entre alguns, seus pares. A intimidade com esses códigos cria um grupo “culto” ou seja cultivado que se pretende cultuado sempre. As elites excluem evidentemente de seu círculo aquilo que é popular. Ou seja com o qual todo o povo – de qualquer classe – se identifica, entende, gosta e tem acesso. Podemos só lembrar a reação da elite branca brasileira ao lundu, ao candomblé, ao samba, à capoeira: expressões simbólicas dos pretos, das “classes inferiores”. Poderia citar outros exemplos de rejeição. Mas fiquemos por aí.
Isso acontece nas sociedades até um Picasso reconhecer e se apropriar dos valores estéticos das máscaras africanas, por exemplo. Até a indústria transformar o lamento do blues em discos, vendáveis. Até o cinema perceber o potêncial dramático e catártico das vidas nos guetos sociais. Aí a coisa muda.
Acontece que as periferias cansaram de cultuar a produção simbólica da classe média e seus artífices. Cansou de ver sua própria produção simbólica retrabalhada em nova embalagem e seus artístas ascenderem e decaírem por força de um mercado consumidor. Cansou de ver os seus objetos – música, literatura, etc – serem considerados sub cultura…
As periferias resolveram tomar atitude e cultivar seu próprio discurso, comunicar-se com seu igual através de seus próprios códigos estéticos. Virar as costas para uma sociedade que sistematicamente se recusa a encarar de frente a situação.
A criação desse novo discurso inclui novos agentes culturais, novo vocabulário, novas mídias, novo mercado. Uma nova cadeia produtiva que não faz questão de dialogar com o centro. Que vive independente da vontade ou interferência dos veículos ou agentes da indústria cultural central. Isso é possível agora, graças às novas tecnologias digitais.
E as elites, através de sua juventude, que – questionando valores geracionais, acabam batendo de frente com valores de classe – passam a consumir essa nova produção cultural, a vestir, falar, andar como os jovens das periferias. A cultuar esses novos valores. Integrando esteticamente, de alguma forma, a periferia ao centro.
Evidentemente, parte dessa elite, com uma intuitição ou consciência coletiva, de classe, percebe o perigo que suas posições correm, quando os pretos e pobres saem das páginas policiais e ocupam o caderno de cultura. Sabe também o perigo que corre quando seus jovens começam a frequentar as páginas policiais, atraídos pela mítica da periferia (“seja marginal, seja herói”) e buscar aventura no lado B da cidade, que inclui também, como bônus track, as drogas e seu discurso completo, sua nova sintaxe vernacular e comportamental. Essa elite passa então a execrar a estética produzida na periferia, suas expressões e produtos.
Mas não tem jeito, a indústria cultural e a mídia abrem espaço para os novos produtos extremamente vendáveis que, pelo seu apelo popular, já construiram um mercado paralelo. É o que está acontecendo. A juventude se veste, fala, se comporta como garotos de favela. As gírias vem do mundo das drogas e as músicas, danças e meios de curtí-las são também modos vindos da periferia. O exótico, o erótico, vêm com carga transgressora poderosa e promessas de vivências culturais inéditas.
É o que está acontecendo. O repertório é direto, tem novos códigos. A qualidade não se mede por letras de músicas que podem sobreviver sozinhas como poesia apaziguadora. A beleza é outra beleza. A desistência da aspiração pelo eterno vem da consciência da finitude e fragilidade da vida, que acaba com uma bala perdida, uma batida policial. Tudo é fugaz e reciclável. Tudo é reposto com muita velocidade, como os grafittes. Os novos ídolos que surgem como revelação e se extinguem como fogos de artifício, não são ídolos, são objetos de desejo que, consumado, os devora. Não é preciso sofisticação para o fast food, apenas uma boa campanha de marketing e um sabor impactante.
Quando as barreiras políticas e sociais são detonadas pela cultura. Quando estética e repertório da periferia invadem o centro. Tanto faz onde vamos enfiar o que está todo enfiado. Precisamos repensar valores. Incluir. Porque é a exclusão que gera a violência. Os parametros estéticos, os paradigmas formais, os conceitos dos contemporâneos antenados, a cultura e a civilização, eles que se danem. Ou não.
Viva o Rebolation e a alegria de mexer os quadris.