Sobre Luar e Setlist
Escrito por Marcio Meirelles em 2010.
Alexandre,
li seus dois textos. deixe eu falar um pouco:
como encenador, dependo mto dos atores e das condições reais de produção pra montar uma peça. ou seja: o mundo real, os corpos, vozes, desejos e idéias dos atores, o q eles querem falar, e os recursos materiais possíveis definem minhas encenações.
entretanto há conceitos prévios. sigo as chaves q o texto me traz. os textos têm chaves q nos orientam para montá-los. Mtas vezes essas chaves vão sendo descobertas aos pucos, exatamente no trabalho c os atores.
LUAR tem uma estrutura fechada e boa. Vc cria alguns problemas pro encenador. As cenas de sonho com figurinos e situações arrevezadas são seguidas de cenas de vigília onde os mesmos personagens aparecem em suas vestes cotidianas sem transição quase, em cenários acordados. Mas as chaves são visíveis e ajudam a encenação. Se fosse montá-la tiraria partido de algumas delas. A primeira q me seduz é a lanterna mágica. Isso definiria os cenários e as cenas de sonho. Os atores apareceriam em projeções e ao vivo, com vozes gravadas e dubladas. O som ajudaria o efeito da lanterna.
A própria estrutura, a peça dividida em partes, seria explicitada. Os títulos apareceriam em projeções: as fases da lua e do texto, as etapas do aprendizado do amor logo da vida. as cenas de sonho seriam tb anunciadas por letreiros projetados.
Música ao vivo. É o q sempre uso. música composta a partir de referências barrocas, mas c intervenções contemporâneas. Especialmente nos sonhos.
Os sonhos são outra chave forte e me remetem mais ao barroco de valentina, do q ao ibérico, q se impõe nas cenas de vigília.
A floresta, a feira e o convento se confundem como cenografia. E seriam resolvidos tb na chave da lanterna mágica. E planos distintos e móveis, que surgiriam, cresceriam do chão, a depender dos recursos materiais da produção.
E os atores. Falta um homem. São 3 casais, mas falta um homem. Isso é outra chave importante q seria investigada durante o processo dos ensaios. E falo só por intuição. Foi apenas uma leitura e, como disse, interrompida – como não se lê uma peça – mas isso foi forte. A ausência de um homem: um duplo do padre, o q foi amante da louca, talvez.
Qto ao SETLIST, é mais complicado pra mim. A pista de dança é um universo q n frequento há mais de 30 anos – sua idade tvz. Isso faz uma diferença. Mas a estrutura fluída, aberta e remixável tb é clara. O trabalho c os atores seria fundamental para descobrir as chaves, n tão evidentes qto na outra. A vivência c as pistas tb. Mas sem dúvida é um espaço invadido, sem delimitações nem fronteiras. Aí se coloca outro problema. A visibilidade da “cena” – o teatro é um luigar de onde se vê – mas tvz seja isso. O público é parte da encenação. Então qtos atores? dois? Dez?…
Um bom dj, sem dúvida. E a música faz parte da dramaturgia. O dj e o encenador devem trabalhar juntos em todo o processo. Descobrindo e remixando as cenas, as falas e os sons. Aí está a estrutura.
O espaço ocupado pela amplificação das vozes dos atores q seriam “vistos” pelo som de suas vozes. Estariam presentes sonoramente tb. Tvz vjs tb fossem necessários, captando e transmitindo imagens, em tempo real, do público e dos atores. E a cena seria complementar. Real e virtual/real. Os atores alí, mas suas vozes e imagens amplificadas para serem visíveis.
É um pouco sobre isso a peça. Sobre a necessidade de amplificação dos desejos e das vidas de seres urbanos perdidos numa pista, tentando fazer valer alguma coisa em suas existências a partir da atuação, da ação, do discurso atropelado pelo discurso do mundo real e do som da pista. Manipulados como imagem por um dj e um vj. Deuses criadores desse universo.
Gostei muito. Parabéns.