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Um novo fato teatral na Bahia


Posso dizer que um dos maiores acontecimentos teatrais da Bahia nos últimos anos foi o surgimento do Festival de Teatro do Subúrbio, portanto, do Coletivo de Produtores Culturais do Subúrbio.

Aí tem um sopro de vida para o teatro baiano. Não é exatamente uma revolução estética, é um sentido de urgência, uma demonstração da necessidade da linguagem, da expressão cênica para a sociedade baiana.

Nós, do centro, do circuito cultural hegemônico, temos abandonado cada vez mais as plateias das peças produzidas por nossos pares. Como motivo desse esvaziamento pode ser citado o medo da violência urbana, o sentimento de insegurança, angustiante para a sociedade que evita sair à noite, ou o custo dos ingressos… Mas os estádios de futebol, os shows musicais, os ensaios de blocos carnavalescos e outros eventos públicos noturnos continuam cheios de gente. Podemos argumentar, em resposta, que nossa ânsia pela espetacularidade, nossas necessidades estéticas, nosso desejo de contato social e debate, para serem satisfeitos, vencem a questão econômica e as ameaças que rondam as grandes cidades.

Então, o desinteresse pelo que está sendo mostrado ali deve ser, em grande parte, a causa do abandono das salas do teatro produzido no centro. Sejam pesquisas estéticas contemporâneas, sejam reafirmações de cânones clássicos ou tradicionais, sejam cópias provincianas do teatro cosmopolita do sul ou do estrangeiro, o que está sendo mostrado não nos faz vencer os obstáculos para compartilharmos uma plateia de teatro. E os índices percentuais de ocupação das plateias continuam baixos, as temporadas continuam diminuindo. Com algumas exceções.

Nós, do centro, nos perguntamos preconceituosamente: se o teatro não tem sido para nós um item da cesta básica, por que então os jovens da periferia têm se interessado por ele, quando faltam tantos itens nas suas?

Aí está. Porque para a periferia o teatro ainda é, e cada vez mais, uma plataforma de debate político. Um debate racial e socialmente afirmativo: Queremos ser vistos, queremos ter voz, queremos dizer e ouvir o que pensamos sobre o mundo. E através de todas as formas e linguagens possíveis: rap, hip hop, grafite, literatura, dança, audiovisual e teatro. E queremos ter o controle sobre as formas de produção e distribuição de nossos discursos. As tecnologias de comunicação do século XXI permitem isto. Para o teatro, arte e linguagem coletiva, precisamos criar coletivos de produtores, não só de artistas. É o que podemos ouvir desse movimento.

E viva o teatro vivo e pulsante e todas as experiências e descobertas estéticas e as reinvenções em processos que esses grupos estão propondo, porque podem revitalizar o teatro como necessidade humana de expressão.

Neste sentido, é um passo adiante na experiência do Bando de Teatro Olodum – parceiro e admirador desse movimento. Se, nos anos 90, construímos um grupo por uma necessidade estética que se transformou num projeto político, fizemos isto a partir do centro: do Olodum, que estava consagrado e institucionalizado, e da carreira de alguns artistas, inclusive eu, também já estabelecidos e reconhecidos pelo centro.

Mesmo que eu tenha deixado de lado a estética cênica que vinha desenvolvendo. Mesmo que tenha esquecido as minhas, para perceber e entender as experiências oriundas dos grupos amadores e militantes dos quais vieram aqueles candidatos para formar um grupo de teatro negro. Mesmo que tenha abandonado a minha para construir uma metodologia de trabalho que fosse reflexo da diversidade de experiências que se apresentavam ali. Mesmo que, para construirmos uma estética própria e nova para todos nós, do centro e da periferia, tenha sido determinante misturarmos as contribuições de todos nós. Ainda assim a produção era central, era nossa, dos coordenadores do grupo: Chica Carelli, Maria Eugênia Milet, Leda Ornelas e depois, substituindo as duas últimas, Zebrinha e Jarbas Bittencourt e eu. Aos poucos é que os atores passaram a participar da produção, embora sempre todos tivessem tido voz nas decisões.

O Coletivo de Produtores Culturais do Subúrbio inverteu a ordem. Eles produzem vários grupos e eventos geradores de fatos estéticos, eles ocupam a mídia central a partir de seu território. Eles mostram a importância que o teatro feito por eles tem para seus bairros e suas comunidades. E são capazes também de produzir no centro, como é o caso da última edição do A cena tá preta, realizado pelo teatro Vila Velha/Bando de Teatro Olodum.

O fato ético e político já se estabeleceu, o estético vem junto. A comunhão da assembleia e do orador para partilhar o mesmo discurso está acontecendo. As estratégias poéticas e linguísticas para gerar o fato cênico a ser partilhado estão em construção como a justiça na sociedade brasileira.

marcio meirelles, rio de janeiro – 5 de dezembro de 2010 www.http://coletivodeprodutores.blogspot.com.br/2011/11/fts.html

Publicado em 05/12/2010 | nenhum comentário

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