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You are in a free country, man!

Publicada no site Bahia na Rede, em 14 de agosto de 2011, por Marcelo de Troi.

Yes, we are in America! São tantas impressões e tantos sentimentos desde que cheguei aqui que se eu fosse relatar seria incapaz de fazer em um post. Nova Iorque é a cidade mais incrível que já tive a oportunidade de conhecer na vida. Me impressiona o fato de os norte-americanos terem transformado essa ilha num conglomerado de arranhas-céus com cerca de 450 estações de metrô.

O verão por aqui é quente igual ao do interior paulista e a cidade é bem menos frenética que o imaginável. Sinto-me diariamente dentro de um filme. Os novaiorquinos são bem humorados e, ao contrário do que se diz, são gentis. Tudo é ‘excuse-me, sir’ e ‘thanks’. O Brasil está na moda, estamos por cima da carne seca, e a qualquer indício de sermos brazuca, vem logo um sorriso no rosto, uma pergunta sobre esse país distante. Dilma também está em alta por aqui e todos sabem que somos governados por uma mulher.

Gosto de acordar bem cedo, junto com o sol nascendo às 5h30, correr nos parques e voltar pra casa para ler o New York Times tomando o breakfast. Passamos o dia flanando pela cidade, rindo do ‘american way of life’, lendo Henfil e notando as mudanças da América dos anos 70 e a do século XXI.

Digo para os amigos americanos que são três os males da América: bed bugs, engasgos e a dívida. Os bed bugs são uma espécie violenta de percevejo. Eles infestam hotéis e residências, principalmente na costa leste. Picam sua pele, chupam seu sangue e seu ovos podem sobreviver por até um ano em camas, carpetes e cortinas. Tem americano que tem tanto trauma dos bichos que chegam a ficar sem dormir. Um país que criou soluções para quase tudo o que você possa imaginar foi incapaz de exterminar esses monstrinhos.

Os engasgos são outra tragédiga americana. Qualquer restaurante em que se entra, tem um informe na parede explicando como ajudar um engasgado. A coisa não é brincadeira e pode matar. Fomos comer em um restaurante vietnamita na Chinatown e vi uma criancinha de 4 anos quase morrer. Foi horrível, mas tudo ficou bem no final. Apenas a voz chorosa da garotinha: ‘Mummy, still hurts…’

Vamos à última e terceira tragédia: a dívida americana. Desde que chegamos não se fala em outra coisa: crisis, default, debit. Manchetes diárias nos jornais e tevês. ‘Yes, can we?’, perguntam ironicamente os americanos. Mas os sinais não são tão visíveis, a não ser pelo fato de que tudo aqui é mais barato que no Brasil com exceção do aluguel. Às vezes, tudo parece mais um complô dos republicanos contra o primeiro presidente negro.

Enquanto Obama é chantageado pela dívida, Dilma é chantageada pela escória política… Olho o Brasil a distância, os Estados Unidos de perto, mil pensamentos passam pela minha cabeça, sobre nossas diferenças, semelhanças. Nas ruas, fico encantado com tantos tipos estranhos e originais desse imenso país.

Aos poucos vou entendendo o significado de conceitos como Liberdade, Estado de Direito, Democracia, liberdade de imprensa. Essas coisas são reais nessa banda da terra. Aqui você pode tudo e principalmente, pode ser o que você quer ser, sem ser julgado por isso. E a qualquer sinal de medo ou encucação de quem sempre viveu vigiado, sou sempre alertado por meus amigos: You are in a free country, man!

ps: meu amigo foi tirar sua carteira de motorista para viajarmos de carro até a costa oeste. Não fez aulas, não entrou em nenhum cartório miserável, nenhum despachante explorador, quase nenhum documento apresentado. Pouca fila no departamento de trânsito. Em menos de um dia, depois de responder a 20 questões e pagar 20 dólares, estava com sua ‘driver’s license’. Isso sim é eficiência em serviço público.

NR: Marcelo de Troi é paulista de nascimento e baiano de santo. Disse fui… para a Bahia recentemente e explica aqui o por quê:
Fotografar e escrever são praticas cotidianas desde minha infância. A partir de 1996 comecei a fazer isso de forma profissional depois de passar pela Universidade. Minha volta para Bahia é uma incógnita. É um lugar que amo, que me ensinou tudo o que aprendi na vida: do amor ao jornalismo, a Bahia me deu régua e compasso. Mas no caso de Salvador, acho que quando começamos a reclamar muito de um lugar, se sentindo impotente para resolver suas questões, não resta outra alternativa, senão partir. A morte de gays, o assassinato em massa de jovens negros nas periferias, o lixo na cidade, o fundamentalismo cristão, a ausência de um poder municipal, eram coisas que estavam me chateando demais. Também senti uma grande força reacionária e conservadora crescente. Conheci bem o lado da intriga baiana nos anos da gestão Márcio Meirelles, de quem me tornei amigo. Fiquei assustado com a perseguição à pessoa dele e acredito que um dia haverá uma revisão, especialmente na capital, para compreender o quão revolucionária foi sua gestão na área da cultura. Projetos como Neojibá jamais teriam existido sem a força dele.

Talvez eu esteja fora da Bahia nesse momento para ganhar forças para lutar novamente, mas não estou pensando nisso ainda. Decidi sair da cidade nas ultimas semanas de julho. Uma viagem de ferias para os EUA se transformou num projeto pessoal para aprender melhor o inglês, conhecer lugares, cruzar o pais de leste a oeste, registrando tudo. Já estive algumas vezes na Europa e em outros países da América Latina, mas a vontade de conhecer a América foi crescendo, principalmente com as mudanças que tem acontecido por aqui. Tenho uma permissão do governo para ficar 6 meses, também tenho um visto de negócios que me amplia horizontes. A minha Bahia é aquela das músicas, a utópica, que a gente sente saudade, mas que está distante, pelo menos por enquanto…

 

Publicado em 14/08/2011 | nenhum comentário

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