ESCAPISMO TEM SEU PREÇO, O ARTISTA TEM SUA RENDA
na bienal de são paulo tive o encontro com kriwet. traduzi um dos textos da exibição.
– Ele já tem duas horas de atraso.
– Ah, mas você sabe que ele é um artista, e os artistas …
– Ah, os artistas …
– Eles são assim, os artistas.
Difícil não amolecer ou derreter sob o encanto dos artistas e não invejá-los numa sociedade baseada na interdição e na ameaça de prisão. Ela permite certos comportamentos ao artista que não é permitido a ninguém.
A suposta loucura de um Salvador Dali iria ganhar hospitalização sem o consentimento nos cárceres da psiquiatria. Enquanto não produzir nada de útil com seu trabalho, para esta sociedade utilitarista, iria trazer a qualquer um apenas miséria, perseguição e criminalização pelos serviços sociais, é socialmente permitido a artistas flanar apesar de sua improdutividade, por vezes lucrativa. Enquanto o aluguel aumenta até que você não consiga pagar, o artista se vê favorecido pelo governo para substituí-lo.
Claramente, o artista é um privilegiado de uma casta à parte: ele detém o monopólio da criatividade e da originalidade, desejo e criação lhes pertencem. Portanto, não há necessidade de criar, os artistas se encarregam disso no mesmo processo de deixar o pensamento aos filósofos ou a história para aqueles que nos governam, despossuindo-nos de nossas próprias vidas. A privatização da criatividade é típica do mundo que a produz, a delegação permanente de tudo o que faria de nós o que seríamos, se ainda fôssemos alguma coisa, depois de tantas agressões à autonomia individual.
Em relação ao capital, a missão do artista é aumentá-lo e tornar-se o mais rico que puder para assumir seu papel de consumidor reinjetando sua fortuna nele. O artista encontra seu lugar na sociedade de consumo, a sua integração ao sistema é óbvia. Mesmo que, muitas vezes, a indústria cultural goste de vender nossos artistas queridos como rebeldes, isso só fortalece um pouco mais o sistema, que permite seus vícios crescerem até simularem a sua própria crítica ao sistema para, finalmente, construir um poderoso retorno sistemático à normalidade. É no show bizz que o artista é mais valorizado, pelo menos socialmente. Na verdade, quem, ao ouvir a palavra “cultura”, não saca imediatamente a carteira?
«Ganhar dinheiro é arte, trabalhar é arte e bons negócios são a melhor arte.»
Andy Warhol.
Escapismo tem seu preço e o artista tem sua renda. E é sempre mais fácil escapar dessa guerra social sem trégua, que contribuir ativamente. Instrumentalizados por dinheiro em favor da paz social, o artista pode vender seu apoio para um candidato nas eleições, para uma marca que lhe convém, para o culto ao progresso ou para guerras humanitárias. Toda causa perdida do progresso, do Estado ou do capital tem seu artista, seu “patrono da causa”. A arte, quando não apenas lazer de domingo das classes burguesas, é o melhor consolo da miséria humana, o reforço da paz social. Alfred de Musset, disse que “um povo infeliz cria grandes artistas”. Na sociedade, a infelicidade é tratada com golpes de Prozac.
Artistas conhecidos como “politicamente engajados” servem para aliviar a consciência das poucas pessoas de esquerda. A diatribe contra prisões de Léo Ferré, compartilhada pelo ouvinte fornece justificativa para sua apatia. A tirania da opinião democrática conseguiu fazer seus cidadãos acreditarem que para ter uma opinião basta expressar um pensamento e que a opinião performática tem o valor de transformação social: o artista engajado é o reflexo midiático não da impotência dos cidadãos, mas da vontade de impotência deles. Preso em sua zona de conforto, o cidadão honesto tem somente que ouvir seu grande Leo, seu pequeno Manu Chao, seu vermelho Ferrat, tem apenas que enviar dez pratas para o sopão como seu artista engajado preferido orientou que fizesse.
O artista humanitário que mostra sua cara de pau ao lado de crianças africanas pesando não mais do que a sua carteira, ao aliviar sua consciência permite que seus “fãs” aliviem as suas por procuração e isto sempre de acordo com os mesmos padrões que definem os diferentes tempos da democracia, como as eleições.
Se para a rebelião é suficiente ouvir um CD rotulado “de esquerda”, ler um poema exaltando o estilo Aragon, assistir a um filme social de Ken Loach, ou se viver a luta por procuração ou citar um jingle situacionista basta para brilhar no panteão aceso da esquerda, o poder nunca vai precisar se preocupar em fazer nada. A arte engajada é um anestésico anti-rebelião, clorofórmio que desculpabiliza o bom cidadão de esquerda.
“O artista deve amar a vida e nos mostrar que é bela. Sem ele, estamos em dívida.”
Anatole France
O artista é também a espinha dorsal de todo um meio social – chamado de “cena” – que permite que ele exista e que ele mantém vivo. Um ecossistema muito especial: agentes, assessores de imprensa, diretores de arte, agentes de marketing, críticos, colecionadores, patronos, galerias de arte, mediadores culturais, consumidores… assim muitas aves de rapina vivem como esponjas dos artistas no horror alegre do showbiz. Uma cena com os seus códigos, normas, párias, favoritos, ministério, exploradores e explorados, especuladores e admiradores. Uma cena que tem o monopólio do bom gosto estético, praticando terrorismo contra tudo o que não é rentável, ou qualquer coisa que não vem de uma mentalidade muito especial em que a subversão deve ser apenas superficial, sem o risco de subverter. Um ambiente conhecido como Cultura. Cada regime tem sua arte oficial como cada sistema tem sua Entartete Kuntz [1]. Pode-se acreditar que para ganhar dinheiro nas artes deve-se ter um dom mas, para gastar, é necessário a cultura, e a cultura é uma máquina de dinheiro enorme, o poço sem fundo da estupidez humana e de sua capacidade de amar, admirar, fazer funcionar o carisma ou de seguir líderes, sejam eles políticos, sociais ou culturais.
«– Pode me dar um copo d’água?
– Você está por fora… Agora se bebe diretamente o sangue.»
Social Warhol.
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[1] Em alemão: “Arte degenerada”: plataforma oficial adotada pelo regime nazista para interditar a criatividade pessoal não interessante em favor de uma arte oficial: a arte heróica.
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Non Fides N°IV: http://www.non-fides.fr/?L-evasion_a_son_prixL-artist-a
http://theanarchistlibrary.org/library/non-fides-escapism-has-its-price-the-artist-has-his-income
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