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SOBRE O VERÃO CÊNICO

projeto de popularização do teatro do governo da bahia

a fundação cultural do estado da bahia, no verão de 2011/12, construiu um projeto de popularização do teatro. o teatro vila velha não entrou porque não concordou com o formato, especialmente por causa da obrigatoriedade de vender ingressos a um real. nos posicionamos contra porque sabíamos que teríamos uma queda de bilheteria, como tivemos. a pedidos, este documento foi enviado para a diretora geral e a de teatro da funceb.

foto- felipe oliveira

foto- felipe oliveira

É sabido que me posicionei contra o projeto VERÃO CÊNICO, da Fundação Cultural do Estado da Bahia em 2011/12. Nós, do Teatro Vila Velha, já realizamos há mais de 12 anos o AMOSTRÃO VILA VERÃO – criado para a sobrevivência do teatro durante a estação onde aparentemente todos querem festa e alegria, como se teatro não fosse isto também – e sentimos o impacto negativo do projeto governamental.

Maria Marighella, nova diretora do Departamento de Teatro da FUNCEB, me pediu um documento em que registrasse minha posição para que, devidamente documentada, pudesse ser levada em conta quando da avaliação e reformulação do programa. Como ainda não tive acesso aos resultados do Verão Cênico, parto do “ouvi dizer”…

Ouvi dizer que o percentual maior de frequentadores do projeto foi de graduandos, graduados ou pós graduados. Se é fato, temos confirmado o que já se sabia por outras pesquisas: o barateamento do preço de ingressos ou sua gratuidade apenas incentiva aqueles que já vão ao teatro a irem nessas ocasiões. Isso pode ter gerado talvez um público não pagante significativo mas que não vai se transformar em pagante. E, se não houver investimento na criação deste público, na sustentabilidade das artes, ou seja, no mercado, o Estado terá uma demanda impossível de atender.

O percentual dos que querem ir mas não vão porque não podem pagar dez ou 20 reais (valor médio praticado para os ingressos de teatro) é muito pequeno e possivelmente se beneficiou do projeto, aumentando um pouco os números positivos…

Mas aqueles que simplesmente não vão ao teatro não irão porque é barato ou de graça. Porque muitos até podem pagar o quanto se cobra. Pode-se fazer uma pesquisa nos shopping centers da cidade ou nos multiplex que exibem filmes americanos em 3D ou 4D com valores bem superiores à média dos espetáculos cênicos ou nos shows de grandes estrelas pop ou do pagode ou entre os foliões que pagam altas somas pelos abadás de blocos puxados por atrações midiáticas, pra se ter uma ideia a respeito desta pseudo democratização a preços baixos ou de graça.

Esse não público precisa ser incentivado de outra forma a ir ao teatro. É preciso primeiro que se valorize o teatro. Depois que se entenda os porquês da rejeição à linguagem ou da falta de hábito. Questão mais complexa que mexe com cultura, no sentido de identidade, compartilhamento de produções simbólicas, memória e formação; mas também com educação, no sentido de construção de conhecimento e repertório, entendimento de estruturas e linguagens.

Foi feita uma pesquisa com os teatros que não aderiram ao Verão Cênico? É preciso uma avaliação do impacto do projeto e suas consequências no mercado e em toda a rede produtiva das artes cênicas, não apenas nos espaços e eventos do projeto. Para sabermos se vale a pena ser repetido.

Já existem programas na mesma direção sendo executados com sucesso pela iniciativa privada. Por exemplo: o Amostrão Vila Verão, para ficar apenas com o do Vila Velha. Apesar de ter sido um período atípico por causa da greve dos policiais e dos transportes, ainda assim é possível uma avaliação. Fizemos e não foi boa. Houve uma queda de público. Especialmente nos dias da semana em que havia espetáculos do projeto gratuitos ou a um real.

Suponhamos agora que o Vila abra mão de seu Amostrão para aderir ao Verão Cênico. Podemos imaginar: mesmo que fosse contra nosso princípio de “não darmos de graça a única coisa que temos para vender”, mesmo sendo uma interferência na cultura do Vila, talvez aumentasse o público não pagante, como “ouvi dizer” aconteceu em outros teatros e ficaríamos com uma bilheteria ou o abono do Estado. Muito bem. Suponhamos então que o próximo Governo não queira ou não possa dar continuidade ao programa. Então a cidade perderá dois projetos de popularização do teatro. Porque é difícil se recuperar uma marca da qual se abriu mão.

Quando a primeira gestão da Cultura do Governo Wagner resolveu incentivar a existência de festivais internacionais promovidos pela iniciativa privada, ao invés de realiza-las no âmbito de seus órgãos, foi para que pudessem sobreviver à descontinuidade administrativa do Estado. O objetivo é que esses festivais, apesar de ainda dependerem do apoio governamental, continuem a existir buscando outras fontes de recursos financeiros, outros recursos e outras estratégias. A grande dificuldade para isso é não termos ainda um mercado. Não temos um público pagante que garanta essa continuidade e, mais que isso, legitime a importância das artes cênicas para a sociedade através da troca simbólica. Então não temos também o consequente interesse de patrocinadores e investidores nelas.

Por outro lado, a pesada campanha publicitária, movida pelo Governo para o Verão Cênico, ainda que supostamente promova O TEATRO BAIANO, deixa de fora tudo que não está no projeto – que fica sendo então não teatro ou não baiano? – E não tem jeito porque, de outra forma, o Governo vai se apropriar indevidamente de uma programação que não conta com o recurso financeiro público. Ou, dito de outra maneira, vai dizer ao contribuinte que está investindo no que de fato não está.

Duras decisões precisam ser tomadas. Qual o caminho? Reformular o programa, mudar radicalmente ou acabar com ele? Bom, realmente é necessário se conhecer e interpretar os números resultantes do projeto em todo o estado ou, pelo menos, na capital levando em conta toda a rede produtiva das artes cênicas.

Se chamarem apenas os artistas para discutir, não chegaremos muito longe. É preciso que se tenha uma visão de rede. As artes do espetáculo movimentam uma enorme rede criativa, produtiva e econômica de serviços, consumo, capital. Portanto essa rede tem que ser estruturada e tornada visível para ela própria e então ser consultada, atendida, articulada, fortalecida e poderá caminhar sem a dependência quase química do estado. Ou corremos o risco de administrar crises de abstinência quando o Governo recua do papel de fornecedor para assumir seu verdadeiro papel.

Creio que talvez o apoio aos teatros para desenvolverem seus próprios programas criativos de popularização das artes cênicas (incluindo aí circo e música) durante o verão, seria o início de uma mudança. Um programa como o Ouro Negro pode ser o modelo. O cadastramento de entidades capacitadas, uma verba definida a ser distribuída em patamares de valor, segundo critérios objetivos de pontuação, como longevidade do projeto, metas a serem alcançadas, público a ser beneficiado, se a entidade já recebe ou não verba pública para manutenção do teatro e de suas atividades etc… Mas, principalmente que seja vetado o ingresso gratuito. Que a previsão de arrecadação de bilheteria seja também critério de pontuação. Que estratégias para conseguir isso sejam avaliadas.

Deveria haver também uma ação diferenciada para não ficarem fora do programa os teatros governamentais – teatros do Estado, dos Municípios e das Universidades federais ou estaduais que já tem 100% de seus custos de manutenção garantidos por verba pública. Uma ocupação temporária, durante o verão, por produtores ou grupos com programas como os dos teatros particulares, escolhidos através de procedimentos semelhantes, também fortaleceria a rede.

Talvez assim tivéssemos uma renovação. Os teatros, centros estruturantes para as artes da cena, e seus gestores seriam parceiros do programa, teriam que lutar por uma boa programação, exercendo seus direitos e responsabilidades pela curadoria, teriam que valorizar e se associar a produtores e grupos, teriam que batalhar por público com os artistas e produtores, não só distribuindo convites mas com campanhas eficazes e exemplares de uma verdadeira formação de platéias.

É isso que tenho por enquanto. Fico à disposição e contem sempre comigo porque sou da área e preciso de políticas que me ajudem a sobreviver do que faço. Não pelo que faço.

Abraços e boa sorte.

mm

P.S.: Quero lembrar aqui que o TCA a 1 real não é uma campanha de popularização, mas um programa de deselitização. Completamente diferente disto tudo. Significa acesso ao Teatro Castro Alves – teatro governamental que cobra o valor médio de 80 reais por ingresso – num horário não competitivo (ainda que possa ser argumentado quanto a isso que normalmente as pessoas não vão ao teatro duas vezes no mesmo fim de semana) para uma programação específica: espetáculos que já fizeram carreira e sucesso na cidade ou que foram exibidos no próprio TCA a preços na faixa mencionada ou de seus corpos estáveis. Vale salientar também que o TCA tem um público que prefere pagar em média 80 reais para ser visto no horário em que se paga 80 reais, do que pagar um real e ser visto no horário de um real.

Publicado em 13/09/2012 | nenhum comentário

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